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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Instantes, poemas de Luciano Lopes



Instantes

de Luciano Lopes


amadurecer, desconfio
é aceitar as incompletudes
desconfio ainda
que a paz interna
vamos ter
que negociar
com um sobrenatural
cada qual
com o seu


*

abandonaram-me
as bruxas e as fadas
e condenado a realidade
fui ver se ainda entendia
os desenhos das nuvens
e não surpreso
meus olhos
não suportaram
nem a claridade


*

me encontro
no momento
em que 
meus olhos
se perdem


*

quando 
o que resta 
é o silêncio 
foi feito 
o que deveria
ter sido 
desde o início

*

desconheço todas
as partes de mim
passo os dias
em encontros e desencontros
é a solidão do existir
a solidão tem braços 
que não têm a mecânica de abraçar

*

a hora 
de começar 
o grito
dói mais 
que o grito

*

lá no fundo do coração
nunca mais visitei





Luciano Lopes (Brasília/DF). Poeta e servidor público. Tem poemas publicados em alguns blogues, na Germina – Revista de Literatura e Arte e edita o Quando você me olha, eu existo tanto!. Publicou  Trabalho de Carpintaria, com o pseudônimo de Lupi Lobo (produção independente).



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Cinco Poemas de Sílvia Palaia


Foto: Maria Doval Ballet


A poesia de Silvia Palaia


Silêncios

transbordada de silêncios estico as lembranças e escondo a tristeza embaixo do meu travesseiro bebo o elixir da esperança apanho meu sorriso na gaveta e guardo na bolsa amanheço. seis horas e quatro minutos.

*

Jura de Amor Eterno

prometo me manter descabelada de alegria prometo fingir que você não é a companhia que eu mais gosto prometo fingir que você não me faz falta. prometo não lhe contar que penso em você, antes de dormir prometo não lhe contar que penso em você, antes de acordar prometo enamorar-te enquanto enrolar seus dedos em meus cachos. prometo enamorar-te enquanto coubermos, sem transbordar.

*

O tempo

manter no tempo os sussurros parar o minuto da alegria compartilhada olhar para o ponteiro, do velho relógio da parede, e ser cúmplice do tic-tac silencioso, da madrugada ardente, dos beijos trocados em segredo da noite esquecida. do copo de leite. do pano cobrindo o fogão. do amor desembrulhando. da vida da gente.

*

La Llorona

vem, a porta está aberta vem, a mesa está arrumada: dois pratos. vem, deixei a melhor cadeira pra você. vem, fiz sua comida predileta (sem cebola) vem, o vinho é tinto, encorpado na temperatura que você gosta vem, chavela canta la llorona a voz é grave e melancólica (compramos o cd no méxico, lembra?) a casa azul: quase casamos por lá eram tantas cores... vem, o aroma está ótimo você sentirá do portão: cravo e toque de manjericão vem, o número é o mesmo a senha: abraço assim que o portão abrir já sabes o que fazer em frente: são dezenove passos vem, meu amor, depois a comida esfria a cantora cansa o vinho estraga vem, meu amor a vida não espera.

*

Maio

era noite
num maio qualquer
depois em julho
me alimentou de ternura
acariciou meus talentos
embebedou meus temores
e foi
disse que não cabia nos meus abraços
em julho
me envolveu com seu casaco
de veludo
matou meu frio
e foi
disse que seu tempo era curto
pros meus beijos longos.
meu corpo bastardo
apertado na cama,
do quarto dos fundos,
que me reservara
e minha alma sufocada
pela falta de luz
no corredor de teus olhos.
abri a janela
em setembro
e deixei a primavera entrar
desde então
não cabes no meu quarto
da frente,
nem em minha cama macia
onde deita um coração
encantado
que tem costurado seu sonho
ao meu.

*

Epílogo

I
hoje me olhas
com ar de desprezo
esquece do amor,
esconde o desejo
II
no meio da noite
na mesa de canto
o nosso lugar
te olho de lado
me chama pra perto
me faz suspirar
III
parado no poste
me olhava partir
gritou o meu nome
voltei apressada
é noite, morena
me leva pra casa.
IV
e nas noites sombrias
te espero calada
no sonho te vejo
te toco e te beijo
desperto assustada
e na cama vazia
quem tanto eu queria
não está ao meu lado.





Sílvia Palaia é meu nome. Tenho 54 anos de intensidade e rebeldia. Sou socióloga e historiadora – com especialização em Historiografia e Cultura. Minha vida quase todo tempo foi pra explicar. Minha fala é minha ferramenta de luta e de amor. Escrevo porque é o que faz sentido na minha vida. É minha outra fala. A da alma em estado bruto. Também sou mãe do Pedro e do André e mulher do Heitor – companheiro da maturidade, da arte e da vida.  


terça-feira, 17 de julho de 2018

Cinco poemas de Angela Zanirato



A poesia de Angela Zanirato



Medusa

os cabelos de Medusa
crescem até hoje
em silêncio
cobra coral
cobra d'água
cobra da morte
víbora
naja
em seus olhos ofídicos
um mar vermelho de corais
chispas de fogo
ferida antiga
pedra

Medusa me fez trocar de pele
tirou meus trajes
vesti couraça
modificou meu olhar
para a luta

os cabelos de Medusa:
-rios de liberdade
onde se aprende a rasgar mordaças
e nunca mais parir algemas.
Transversalidade

há quem se preocupe em dar pontos
no descosturado
-eu não!
preciso dos esgarços
dos restos de linhas
do mal acabado

- o que sou eu neste instante
senão um princípio do verbo?

tudo que se quer perfeito
tem um fim

bem dito os desajustados
estão sempre começando
bem dito os verbos irregulares
e suas rebeldes radicais
bem dita a corola do algodão
que cismou ser flor

bem dita mão calejada
que tece fios da memória
em novelos cujos dramas
pesam mais que seus gramas

bem dita essa transversalidade
que me atravessa
tira meu eixo
e meu ângulo.

*

Galhos

me dizem:
- forte!
mal sabem que não carrego minhas malas
recheadas de desespero e desistências
mal olham para meus braços / galhos podados
olham para meus olhos rajados
para minhas unhas de garras
para meu lombo cicatrizado

me dizem:
- forte!
mal escutam meu coração descompensado
aquele grito calado
aquele sono agitado
escutam meu discurso/ censurado
minha ideologia desfraldada
minhas palavras declamadas

me dizem:
- forte!
minha luta interna
nunca foi fotografada
nunca pichei meus medos
nos muros das minhas entradas
nunca desenhei minhas fugas
nas barras das minhas saias
nunca pintei meus dilemas na cara
em maquiagens sofisticadas

me dizem:
- forte!
me digo humana!

*

Seco

não é qualquer tábua
que me salva
não me prego em qualquer cruz
choro a seco
tudo que costura feridas
dispenso
não esterilizo nem o pensar
todo corte será história
toda lágrima engolida será memória
toda dor será fotografia
não maquio cicatrizes
a vida exige crueza
luvas cirúrgicas?
são só vaidades...

*

Rosa da resistência

planto uma rosa vermelha
que resista à maçã da bruxa
deixada na calçada
planto uma rosa vermelha
que resista à clorofila dos cabelos platinados
que floresça no cano das botas
estoure a boca do fuzil
planto uma rosa vermelha
que vá para a luta
armada de seiva
que não esqueça seus motivos
assim como a roda viva não esquece sua engenharia
planto uma rosa vermelha
e que o jardineiro jamais seja acusado
de decepar as próprias mãos na poda
rosa vermelha
que enfeite celas
peito de prostitutas
bancos de sangue
de sêmen
acampamentos
e feiras da lua
planto uma rosa vermelha
e não me preocupo com o ângulo
da fotografia
só com sua rota
de colisão com os fascistas
planto uma rosa vermelha à prova de balas
de tropas de elite
de canhões
uma rosa chumbo liberta
onde as mãos que a busquem
pela ânsia do encontro
nunca estejam satisfeitas.

*

Elegia a pedra

poesia, poesia
conta qual a primeira vez
que a palavra pedra te rondou?
foi a pedra pensante de Wallace Stevens?
ou a pedra viúva de Mallarmé?
a pedra queimada de Aleksandr Blok?
a pedra poética de Ósip Mandelstam?
a pedra –ferro de Hilda Hilst?

poesia, poesia
tuas pedras doem a cada verso
meu coração calcificado
asas amputadas
lírios desossados
este olhar pétreo
constrói muros
dorsos dobrados
pedra sabão

poesia, poesia
tuas pedras
mostram o caminho
dos voos
dos vasos
dos vales
dos ecos
dos gritos das mulheres apedrejada

poesia, poesia
mostre a ultima pedra do poema :
-ensina a caminhar em pedras brutas.








Angela Maria Zanirato Salomão é professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá. Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada para a fase final na modalidade conto. Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados em três Antologias: “Um olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”, 2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP 2017.  Possui poemas publicados  nos sites Blocos Online , Parol , Movimiento Poetas del Mundo, Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016, versão e-book, Revista de Ouro, Revista Ver-O-Poema e InComunidade.